terça-feira, 25 de dezembro de 2012

NATAL DA POEMARIA (i)

Clodomir Monteiro 


feliz natal da palavra
no ano bom do poema
nasceu na palavraria
filha da poemaria

Deus averbou sua lavra
daquela que se calava
no berço humano do ser
feita por si falaria

simbola tudo que vela
daquele sentido ausente
presente antes da prosa
no som sinal se declara

semeada por toda parte
se não se ler fica só
poesia avia universo
som tempo mente imagem

feliz poema natal
em cada verso outro verso
nutre poiésis no berço
diversifica linguagem

natal prazer da poesia
mãe do nascer indigente
que no velhinho da gente
poema nasce inocente


[i] Para Nilto Maciel escrita poema tropel Natal de 2006, atualizado.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

POR NÓS PELA ACADEMIA ESTEJAMOS NO SARAU LITERÁRIO - O POEMA É MEU AGRADECIMENTO

OFERTADO A TODOS OS MEMBROS DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS
e aos demais que os lerem


AOS GUARDADORES DE LEMBRANÇA
TENDA DE ZINCO

Clodomir Monteiro


veredas sonhos dimensões que ponho
acima mesmos derramando idades
amizades amorizações janelas
solar de filhos canto andando somos

espaços livros de memória
porões grilhões silenciados
cobrindo folhas livres zinco
paredes rachaduras martirizam

reféns alguns fendas que fomos
horizontes domos mastodontes
cativas ouvindo folhas zinco
fruindo brotos concertos saírem

mostremos fendas renovadas flores
manejo de esperantos horizontes
crianças rejeitadas em solares
amadas noites em tempos lunáticos

perdemos voos som de zinco sonos
soltando encantos cantos liberdade

quinta-feira, 12 de julho de 2012

PAZLAVRA

Para Nilto Maciel


sim não usamos palavra
somos levados por ela
se sua lavra nos livra
só somos eco daquela

ao repetir só de ouvido
o já pensado bem antes
não criaremos de novo
o solto som de um poema

pá cava fala e enterra
o que tão cedo é depois
amarga amar la na cova
pó do coveiro a descer

ao dizer morta mordaça
idiota idioma da guerra
árabeamericano
jaz lá na tumba penumbra

forca na fala da força
muda irá que engolira
ara aduba tirano
palavra da paz retumba


São Sebastião do Caí, RS, Brasil


Poema Publicado em
Ano XVI, novembro de 2006 a abril de 2007
Iniciada em janeiro de 1992, em Brasília
Editor/fundador: Nilto Maciel

sábado, 23 de junho de 2012

O FATO

a presença
            do silêncio
            corpo/lento
no sem tempo

a ausência
            da palavra
            engolindo
já sem tema

a palavra
            sufocada
            na garganta
engarrafada

a paciência
            numa casa
            com a fala
engavetada

só suporta
            no suporte
            viva voz
violentada

aparência
            transporta
            o pensamento
a palavra

no seu tempo
            invernizando
            a palavra
casamento


MONTEIRO, Clodomir. Derroteiro de Rotinas. São Paulo: Quíron/Práxis, 1976. p.31

quinta-feira, 24 de maio de 2012

DA OCIDENTAL EPOPÉIA ACREANA

“as águas espumosas
e inquietas descendiam
batendo fragas e rochedos”[1]

Barbados Açores navios negreiros
avós caravelas do leste e do norte
retirantes sertões severinos silvinos
com Damião Frei Romão vem Santana

sangram riomar são romeiros latinos
ao ver-o-peso presépio do forte
mãe Manaó Nazaré peregrinos
Ajuricaba sua gente conclama

sangram florestas exploram nascentes
seus lampiões são os olhos do corte
pai aquiry anajás seringueiros
João Gabriel de Uruburetama

brabos nativos afrodescendentes
imigrantes soldados do sul e da sorte
coronéis libertários benditos guerreiros
da ocidental epopéia acreana


Clodomir Monteiro



Poema publicado em:
Antologia de Escritas No7 (org. José Félix). Portugal: Quilate, Lda, 2010. p. 25
* Fotografia ilustrativa presente em Álbum do Rio Acre 1906-1907 de Emílio Falcão.


[1] Apud Luiz de Camões.

terça-feira, 15 de maio de 2012

AVIA NO TEMPO

o problema de todas as horas
nos minutos interiores de cada alma
os segundos que se perdem
se prendem se pedem suplicam
nos momentos em que olhos se cruzam

o dilema de todas as almas
nos interiores de cada minuto
as horas as ações as frações
as orações que se servem
nos pratos nos cálices genuflexórios

os dias escorridos das bandeiras
canecos cheios coagulando tempo
os segundos por dentro das porongas
a farinha d'água escovando as costas
a faca nos troncos sulcando gotas

as semanas virando sernambi
vão cobrindo os princípios defumados
cavadores refugados minutos prensados
falas se foram virando silêncio
o inverno protegido em cada jamaxi

o problema de todos os canecos
nos protestos interiores de cada porrada
os minutos por fora das semanas
o jabá cozido na metade
a mulher deitada masturbando a rede

as estradas dos meses embalados
a umidade subindo em cada corpo
o sol derretendo em cada pele
o saldo da vida dividida e estivada
os anos vão ficando em cada porto


---

(fragmento do antropoema AcreDITO, saga da ocupação acreana que redundou na revolução contra bolivianos para anexação do território ao Brasil)

AVIA = prover alimentos em troca da borracha que se vai produzir. O poema é uma paródia do tema/problema.

domingo, 13 de maio de 2012

MINHA MÃE

Clodomir Monteiro
Rio Branco 07/05/2005


A mulher da foto que vejo ao lado
sempre esteve ao meu lado
no lado do lado do coração

O lado do lado de quem esteve só ao lado
é quem nunca esteve ao lado no lado
ela continua sendo a foto ao lado

Agora estou dentro
e quando olho de dentro não vejo minha mãe
eu sou

Ela está em todos os lados
ao lado e dentro de todos os lados
ela vive falo sempre com ela

Mas jamais sairei do espelho.

MÃE MULHER MÃE

Clodomir Monteiro
07/05/2005



ELA FOI UM DIA
DE QUEM FOI UM DIA
QUE FOI UM DIA

PENSA TODO DIA
O QUEM FOI UM DIA
DAQUELE QUE FOI DELA UM DIA

E QUEM FOI UM DIA
DAQUELA QUE FOI DELE UM DIA
NÃO SERÁ UM DIA
DAQUELES QUE SERÃO UM DIA

DAQUELES E DAQUELAS QUE SÃO HOJE EM DIA
E FORAM DELA UM DIA
COMO NÃO SÃO QUEM FORAM UM DIA
NÃO PODEM MAIS SEREM DELA HOJE


ELA QUE FOI UM DIA
DE QUEM FOI UM DIA
AINDA É QUEM FOI UM DIA
DAQUELES QUE DELAS NÃO SÃO MAIS HOJE


A MÃE QUE TIVEMOS UM DIA
HOJE É QUEM NOS FOI UM DIA
MAS NÓS NÃO PODEMOS HOJE
SER DAQUELA QUE NOS FOI UM DIA
ELA FOI UM DIA


E SENDOAINDA HOJE
QUEM NOS FOI UM DIA
E NÃO SENDO QUEM FOI UM DIA
NÓS A SOMOS TODO DIA

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O MAR E O LAGO


amar o mar
amar o lago
o sol e o sal
o céu ao léo

o amor ao mar
amadureceu
no lago dos cisnes
amor ao sol
solto na areia

amor ao céu
até onde a vista
chega o ato afaga
a areia
se você fosse
sincera

amor ao sal
escorrendo na pele
do canto refrão
a mulher
de verdade
sem vaidade

amar o povo
fugir do rodo e rolo
compressor
da dita dura

o mar e o lago
o lago é o mar
na cantiga de ninar
no grito libertar

cantar famélias
joão caetano
municipal
nas telas
e
telinhas

auroras e amélias

nas ruas avenidas
o largo mar
de gente
comprimida
nega do cabelo
duro

durou o tempo
do sonho
o povo
suando

quinta-feira, 26 de abril de 2012

AMORCEGAÇÃO


morcego
            persegue
                        na noite
                        no norte
            secreto
do som


soma
    sequencia
                    no cimo
                    do sonho
    sirene
sonora


namora
            morando
                        na ponta
                        na porta
            sonando
a amada


insensato
            insiste
                        no ato
                        no fato
            do amor
cegando


realidade
            rebrilha
                        na aurora
                        do dia
            nega
paixão


morcego
            espera
                        na volta
                        da noite
            o amor
chegar


insensato
            persiste
                        no ato
                        do fato
            do amor
cegando




Poema publicado originalmente em
MONTEIRO, Clodomir. Derroteiro de Rotinas. São Paulo: Quíron/Práxis, 1976. p.55

quinta-feira, 12 de abril de 2012

APONTE DOS DOIS MENINOS


além do tempo e razão
oculto em nossas origens
eu vejo que nos separa
aquela ponte inconclusa


muito tempo poucas falas
muitas falas nenhum tempo
afinal nos temos ditos
o que a fala não ditou

não ditou que a vida é breve
não ditou que amanhecemos
e os discursos decifraram
sonhos do entardecer

resta pois saber meu pai
aguardar o anoitecer
para juntos combinarmos
noutra ponte mais sensível

onde está o par genético
na razão ou na emoção
voltaremos dois meninos
um no outro escondido?

somando ao tempo a razão
por dentro dita a memória
nos ajunta o que não vejo
de uma ponte indestrutível



Clodomir Monteiro

* A Ponte de Heráclito (1935), de René Magritte.

sábado, 7 de abril de 2012

PÁSCOA NA REDE JESUS


Páscoa que nada no corpo
alma danada de porto
presa na água conforto
espuma olho de morto

Páscoa com tudo de horto
calma aninhada do torto
na granja seca ovo afoito
espinha em sesta absorto

Páscoa que nada na alma
pesca da paz como acalma
leva na mão gema apalma
espinho em sexta que salva

Páscoa que sobe da cruz
convida peixe conduz
cravada mão palma luz
Páscoa na rede Jesus



Clodomir Monteiro
Rio Branco, Acre, 05/04/2012


*

art by Wassily Kandinsky

sábado, 24 de março de 2012

O QUARTO LADO DA VIDA (***)

me mando pro mar das bermudas
vestindo casaco e na proa
sou parte anterior desta nau

não falo se olho me penso
dormindo no musgo do casco
mergulho na linha do som

pretendo afundar os três cones
sumindo nos vãos de meus dedos
são furos na água do nada

se sopro sedentro de ar
percebo meu mastro agitado
sem nada na onda que anda

se finjo renascer de um boto
rosando regaços de virgens
são penas que apenas depeno

roendo memória de amigos
retiro o casaco e me abraço
navego eu andor da existência

resisto descer ao convés
reato os três lados da barca
não sei se já vou ancorar

o barco de quem me decifra
no quarto lado navega

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(***) obs: este poema completo contém sua repetição. Sendo escrito a partir da leitura de baixo para cima, incluindo o título (que ficaria no fim do poema). Sugiro que esta leitura de baixo para cima, o leitor deve fazê-la para sugerir a navegação que me decifra (a mim que é também o próprio leitor lendo-se).